Júlia e António. Protagonistas de um amor que se basta a si
próprio. Um amor que não sei como surgiu, que não sei se cresceu ou se, pura e
simplesmente, já nasceu infinito. Um amor que testemunhei desde
sempre mas do qual apenas tive consciência num tempo e num lugar onde pensei já
não haver terreno fértil para um sentimento que dizem tão frágil e delicado. Um
amor que resistiu ao tempo que tudo cura e que tudo leva. Um amor que
desconheceu os perigos que dizem pairar sobre todos os outros amores do mundo.
Um amor que viveu nas rotinas e na ausência delas. Um amor que não fugiu pela
janela quando a necessidade bateu à porta. Um amor que abraçou a chegada de
filhos e que chorou a partida deles. Um amor que apenas saiu da casa que o
acolheu quando os longos anos de vida dos corações que habita obrigaram a cuidados
redobrados. Um amor que resistiu à perda de memórias. Um amor que ficou quando
os rostos de filhos e netos já não despertam lembranças. Um amor que, quando já
todos são desconhecidos e nada mais importa, continua a dar significado aos
nomes Júlia e António e a justificar a vontade de continuarem a viver. Um para
o outro, ao longo e ao fim de tantos anos, apenas e só, um para o outro.
Sem comentários:
Enviar um comentário